A DOR

A DOR
A dor que dói...

VIDA

Tejo que levas as águas, correndo de par em par, lava a cidade de mágoas , leva as mágoas para o mar...

sábado, 18 de agosto de 2012

Ana


Ai Ana, minha Ana
como te desejei
como te esperei,
como de alegria respirei
quando te conheci
e pela primeira vez te vi.
Que feliz me senti!
Eras a outra menina
a menina que vinha
para ter por maninha
a doce Joana.
Que traquina...
e que magana...
esta minha Ana !
Eras linda...
beleza que se via
beleza que se sentia
beleza que agora teima
em se entregar
apenas a quem ela deseja
sua interior beleza desvendar ...
Linda sim !...
Desafio a uma aposta...
Quem gosta?
eu aposto pra ganhar
e vos garanto
sem receio de perder
que sua maior beleza
está inda por revelar
e ela só desvenda
o que deseja desvendar
pois em seu castelo,
com ameias e torres fortalecido
de areia e pedras construído,
há algo de sofrido
há algo que anseia
pelo vento que enfuna a vela
e faz qual barco avançar
e bolinar...e baloiçar...
estremecer e serenar...
e nesse dia , Ana,
terás tudo o mais para dar
e todo o mundo para amar!
Ai, Ana ,minha Ana
como desejava
dar-te de novo a mão
para desceres o corrimão
correr e jogar ao pião...
saltar, sorrir, gargalhar
e todos encantar!
Ai Ana, minha Ana
que saudades me sofrem
como sofro tua ausência
e sofre meu coração
não por ser meu
nem por ser coração
apenas por ser da tua mãe
o dito "trapalhão"
que já nem ao ritmo bate
nem ao compasso obedece
porque nunca...
nunca...nunca...
nunca te esquece!

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A noite e a dor


Quando a noite cai
nunca fico só!
Uma cabeça
que não dorme
que mexe e remexe
o velho passado
e o recente
fica comigo
bem desperta...
Fecho os olhos,
tento esquecer
me entreter
e não pensar
mas a cabeça
não cede
à tristeza
ao cansaço
à dor...
Que horror,
que tortura,
que insanidade
nada cede à vontade!
O pensamento
em espiral
cada vez mais alucinante
em círculo
cada vez mais fechado
em ferida
cada vez mais aberta
em dor
cada vez mais lancinante
perde a lucidez.
E ontem,
hoje,
amanhã
uma vez,
outra vez
tanta, tanta vez ...
acaba noite fora
por perder
o conto às horas
e tarda o amanhecer!
E quem assim
tanto tempo fica
chora,
chora e não demora
a desejar partir
para o lugar
onde a memória não existe
a noite é muda
e o silêncio não murmura
que a vida é dura .
E dura ...dura !

sábado, 11 de agosto de 2012

O ninho


Sempre quis construir um ninho
onde eu e meus filhotes
vivessemos afastados da má sorte.
Escolhi uma chaminé
cheguei a bater o pé,
mas quando chegou o Natal
percebi que ali estava mal.
Não desisti...
Escolhi uma alta e velha faia
mas sempre que soprava o vento
e a chuva caía violenta
o desânimo...
o desconforto era geral
e mudámos para outro local.
Não desisti...
Escolhi torre cimeira em castelo
e achava-o muito belo
só que sem ser avisada
alguém alegou
que aquele ninho o património estragou
e tudo ao início voltou.
Não desisti...
Voei bem alto
e encontrei sem sobressalto
um poste bem firme
e nele reconstruí meu ninho
com meus filhotinhos...
mas pouco tempo durou
pois o poste tombou
quando a auto estrada ali passou!
Não desisti...
Em casa senhorial
bem junto ao beiral
teci meu ninho de pauzinhos
como se fosse de linho.
De lá se via o céu
se via o mar
e nos campos papoilas bailar
e as gentes , muitas gentes
e o trabalhar...
Pensei sossegar.
Que erro cometi !
Bem cedo conclui que,
qual trepadeira,
uma erva daninha
por mais rasteirinha
encontra maneira
de nos estragar a vidinha !
Não desisti.
Fiquei.
E ensinei
a quem me quis ouvir
que só nos consegue derrubar
quem a força da alma e do coração
subestima sem razão
e não conhece como eu
a força da verdadeira paixão !
Erva daninha trepou, trepou
e ao ninho chegou...
mas a minha , nossa força
breve, breve a exterminou.
E então, para concluir a demanda,
basta que vos assegure
que meu ninho sobreviveu
e filhotinho cresceu...cresceu!

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A meu pai


Paizinho,
sabias que...
nem todas as noites de verão
são de mil sonhos feitas?
Sabias, por certo,
melhor do que eu,
que a dor dói
quer seja verão ou não !
Lembras-te?...
Sim. Foi em pleno verão
que, deixando cair uma lágrima traiçoeira,
sorriste e me deste a mão
essa primeira vez...
essa sempre tua bondosa e frondosa mão!
Não sabias porém
que seria numa noite de verão
numa daquelas noites
de que tanto gostavas...
de que tanto falavas...
e com tantos amigos partilhavas...
que irias para bem longe partir!
Partir numa madrugada triste
numa madrugada quente de verão
quem em rigoroso inverno nasceu
não pode senão ser ilusão !
Partiste ou ficaste ?
Olhaste, respiraste, choraste e,
num suspiro profundo,
daqueles que abraça o mundo
calaste para sempre
e perdoaste
tudo o que de mau o mundo te ofereceu
e recordaste tudo o que a vida de bom te deu
e sorriste...
suspiraste de alívio tranquilo
(pois que ao mundo só o bem trouxeste)
e pensaste que chegando a tua hora
contigo levarias sofrimento
mas também o alento de saber
que , como se admira um malmequer,
nos ajudaste a nascer
a crescer
a amar
a sorrir
a lutar
a tolerar
a partilhar
a cuidar daquele belo jardim
não por ti plantado,
mas tantas e tantas vezes calcorreado
umas tantas vezes tão só
outras tantas e muitas
na companhia dos pombos...
das tuas e de outras meninas,
por quem tudo fizeste e farias
se cá pudesses ainda voltar um dia !
E porque partir
é tornar-se invísivel ao comum dos seres
que te alivie saber
quão forte sentimos a tua presença
a tua mão amiga
a tua eterna fantasia
de querer ficar, como ficaste,
para sempre na nossa companhia !

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O silêncio dos outros


O silêncio ecoa pela casa
e um zumbido enche meus ouvidos
para além do tic tac do relógio
nada mais terá permanecido.
Ficou a solidão que ninguém quer
por parecer que estar só é estar perdido.
Ao invés do despertar calmo matinal
e dos nocturnas cumplicidades imperfeitas
sobra gente, sobra mundo, sobra alma
que vão, qual ampulheta, enchendo o peito!
E se estar só é ter por perto
a memória dos dias que passaram
a lembrança dos sons que povoaram
entre quatro paredes o meu mundo,
jamais os cheiros e as cores irão chorar
e pelas alvas paredes gotejar
o frio que as arrefece
mal chega o estio.
E este frio que me habita a casa ,
que transborda da fonte dos sentidos
não é senão o pensamento imenso
daqueles que recordo e reinvento.
Virá em breve o tempo do encontro
do desejo, do abraço fraternal,
e quem , aqui e agora, só consigo
e tendo por saudade companhia
abrirá então mão de todos os afectos
e cantará bem alto a alegria
de finalmente ter chegado o novo dia.
Acabaram desencontros, despedidas
acabou-se o silêncio tão temido
pois domingueiramente sua casa
está hoje e de novo bem vestida !