A DOR

A DOR
A dor que dói...

VIDA

Tejo que levas as águas, correndo de par em par, lava a cidade de mágoas , leva as mágoas para o mar...

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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A noite e a dor


Quando a noite cai
nunca fico só!
Uma cabeça
que não dorme
que mexe e remexe
o velho passado
e o recente
fica comigo
bem desperta...
Fecho os olhos,
tento esquecer
me entreter
e não pensar
mas a cabeça
não cede
à tristeza
ao cansaço
à dor...
Que horror,
que tortura,
que insanidade
nada cede à vontade!
O pensamento
em espiral
cada vez mais alucinante
em círculo
cada vez mais fechado
em ferida
cada vez mais aberta
em dor
cada vez mais lancinante
perde a lucidez.
E ontem,
hoje,
amanhã
uma vez,
outra vez
tanta, tanta vez ...
acaba noite fora
por perder
o conto às horas
e tarda o amanhecer!
E quem assim
tanto tempo fica
chora,
chora e não demora
a desejar partir
para o lugar
onde a memória não existe
a noite é muda
e o silêncio não murmura
que a vida é dura .
E dura ...dura !

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Memórias de uma burra de "rastos"

Ao meu marido e a todos aqueles
que não me compreendem e me acusam
de não ser super mulher e super mãe...




Memórias de uma burra “ de rastos”




Casei há doze anos por paixão... O meu marido fez uma carreira de sucesso ( de simples empregado de uma multinacional, passou a chefe de secção... a chefe de departamento e , quem sabe quão longe mais chegará...). Tenho duas filhas que adoro e por quem dava a vida, mas contrariamente ao que seria de esperar, não sou uma mulher feliz – sinto-me angustiada, reprimida, rebaixada, constantemente censurada, deprimida, esgotada...
Ao longo dos doze anos do meu casamento, embora recorde alguns momentos de felicidade – o nascimento das minhas filhas, algumas viagens que fiz, momentos breves de harmonia ...- fui acumulando desilusão, desamor, incompreensão, culpabilidade.. fui perdendo auto-estima, força, criatividade e o desencanto instalou-se. Sinto-me um farrapo. Um destroço, um dejecto mal cheiroso, meto nojo a mim mesma.
Como esposa, fico muito aquém do que o meu marido sempre desejou e deseja...
Como mãe não sou exemplo para ninguém...
Como mulher a dias, diz o meu marido , cumpro as minhas tarefas na perfeição!!!
Profissionalmente, vou fazendo o melhor que posso e sei. Progrido na carreira pela antiguidade e não pelo mérito. È que nós funcionários públicos somos todos uma corja de calões e incompetentes que vivemos à custa do Estado. Por outras palavras, somos pagos pelos outros trabalhadores que produzem e descontam para que possamos receber o ordenado - fraco , para nós- mas excessivo pelo pouco que produzimos!
Será muita exigência, pedir um pouco mais para mim ?
Evidentemente ! Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. E eu visto a farda na perfeição!
Não leio livros nem jornais, não converso com as minhas filhas, vejo telenovelas em sessões contínuas e não converso com o meu marido como as outras mulheres do meu nível (mas eu não tenho nível nenhum!) ...converso com as amigas ( qual mulher- a- dias calhandreira), dou conversa às vizinhas, e tenho atitudes impróprias para quem é mulher de um engenheiro e vive numa vivenda . Recebo poucos amigos e mal. Os familiares não nos visitam . Receberei toda a gente tão pouco cordialmente, serei tão má anfitriã ? Pelos vistos! ( E quando alguém me elogia ou diz gostar de mim, no mínimo , o meu marido estranha!!! )
Devo ter cometido muitos erros, não tantos como os que me são apontados, mas também devo ter algum mérito. Eu sei que tenho, penso para mim , nos dias menos cinzentos... nos outros choro, fecho-me na minha concha, isolo-me , durmo, durmo, durmo ( à espera de não acordar para não voltar a ouvir mais acusações, para não ter de calar e acumular mais revolta... Revolta ? Sim, revolta. Sinto-me perseguida e tremendamente injustiçada.
È evidente que a vida me deu tudo ( ou quase tudo) o que sonhei.
Tenho um marido que diz que me ama.
Tenho duas filhas de que me orgulho.
Tenho uma casa de sonho .
Tenho um cão.
Tenho um carro.
Tenho um ordenado ao fim do mês e estabilidade profissional.
Enumerei o tudo.. o quase tudo (e é muito) é o que me faz sentir tremendamente infeliz.
Não sonho com uma medalha, não sonho com diplomas de bom comportamento, nem elogios pelo cumprimento daquilo que considero meu dever ( embora sinta frequentemente que ultrapasso o humanamente possível ) , mas um elogio, um palavrinha de estímulo sabe bem a qualquer um.
Afinal eu tenho duas filhas , que gostam de mim (acho), e eu bem mereço.
Pese embora o facto de ser frequentemente acusada de não me preocupar senão com o material – as barriguinhas para encher, as roupinhas para vestir, os lápis , as canetas, as mochilas em “triplicado – e de menosprezar o importante que é o espiritual – o ser individual e social que as faz crescer por dentro ,gostaria, portanto, de levantar algumas questões.
Será que o meu marido parte sempre intranquilo quando as deixa nas minhas mãos ? Será que o faz porque não tem alternativa ? Será que se preocupa mais com os outros do que eu ?
Não !
Estava em fim de tempo. A Joana iria nascer mais dia menos dia.
Comecei com contracções. Durante três dias e três noites corri para o hospital , mas fui sempre reenviada para casa. Sofri sozinha dores terríveis durante três loooooooongas noites...não comia, não dormia... em momentos de desespero tentava pedir ajuda ao meu marido, mas ele queria dormir. Senti-me só pela primeira vez.
Estava grávida de sete meses e , por ter começado com contracções, o obstreta medicou-me com Prepar-retard para evitar um parto prematura. O meu marido teve de se ausentar para o estrangeiro e eu, com medo, fui para casa dos meus pais. Mal sabia o que me esperava... Às duas da manhã a Joana acordou a chorar...Acendi a luz do quarto. Estava ensopada em sangue. Peguei no carro, fiz das fraquezas forças, e corri com ela para o hospital. Voltei às cinco da manhã e toda eu tremia... e estava só !
Tinha a Joana dois anos e a Ana três meses quando o meu marido foi à Expo de Barcelona e me deixou com duas bebés nos braços. Uma noite , de tão cansada, deixei os biberões a ferver e só acordei no dia seguinte com um cheiro horrível a borracha queimada. Nada restava no tacho... restávamos nós sãs e salvas, graças a Deus. Estava só... telefonei aos meus pais e pedi-lhes que me comprassem dois ou três biberões pois não tinha nenhum recipiente para dar de comer às minhas filhas.
Lembras-te daquele dia em que a Ana, à hora de jantar , deu um empurrão à Joana e ela , tendo batido contra a esquina do armário que se encontrava atrás da porta da cozinha, partiu a cabeça. Só quando ia ralhar com a Ana e a cara dela se transfigurou e eu me aproximei da Joana é que reparei que tinha o pijama e a camisola interior ensopada em sangue. Há coração que resista? O meu. Rapei-lhe o cabelo em volta da ferida, desinfectei e pus um penso. Quando acabei toda eu tremia e estava só.
Lembras-te também daquele dia à noite em que a Jone me avisou de que deveria estar em Coimbra no dia seguinte às nove da manhã para que a Ana fosse vista pelo pediatra mais conceituado do Hospital Pediátrico , após lhe ter sido diagnosticada uma luxação da anca e um escoliose na coluna. Fui sozinha.. tinhas uma viagem nesse dia. E voltei sozinha , parando de meia em meia hora para não adormecer no regresso...
Lembras-te daquele fim de tarde em que a Joana, por lhe ter ralhado e obrigado a ir lavar os dentes, começou a chorar ( e como era seu hábito) começou a ir atrás do choro, ficou com a boca arroxeada e me desmaiou nos braços. Arrastei-a da casa de banho em peso ( estava nessa altura na quarta classe) até à entrada da sala, deitei-a no chão e com água fria e umas palmaditas no rosto tentei reanimá-la. A Joana acordou, sem perceber o que se tinha passado, e eu fiquei minutos sentada no chão a chorar ...sozinha.
Lembras-te daquele imenso corredor que vezes sem fim percorri com elas ao colo quando tinham uma otite e lhes cantava sem cessar cantigas para as consolar e fazer esquecer a dor ? Uma vez foste tu com a Joana. Estranhaste quando te pediu que cantasses. Percebeste ( disseste-mo) quando ela te disse que a mãe cantava sempre.
Lembras-te das bronquiolites da Ana e das máscaras de Ventilan que fazia durante horas no H.S.M. sempre que a Ana se constipava e ficava com dificuldades respiratórias ?
Lembras-te do dia em que a Joana caiu na Escola e ficou com a boca toda deformada de tão inchada? Sabes quem correu de imediato com ela para o hospital ? Viste-a quando já tudo estava resolvido, mas não viste as minhas pernas a tremer e a fraquejar e as lágrimas a saltar descontroladamente quando a vi minutos depois da queda. Nesse dia , não estavas fora, mas também não chegaste para jantar. Estive infinitamente só.
Lembras-te das noites que dormia em três almofadas, no chão, com receio que a Joana tivesse hemorragias de noite?
Lembras-te das canções que inventei para as adormecer quando eram bebés ?
Lembras-te dos banhos, das fraldas sujas, dos cocós, das diarreias, dos vómitos, das gastro-enterites ( eu sei de cor o nome dos medicamentos), do eczema atípico que deixava as mãos da Joana em chaga, dos dermatologistas que corri, das consultas de dermatologia no H.S.M, até finalmente encontrar a solução com a Dr.ª ....(dou-te um doce , se souberes o nome dela! ) que finalmente deu solução para o problema, dos aparelhos para os dentes, das vacinas sempre em dia... lembras-te da natação no campo grande, ao Sábado de manhã ( eram elas ainda bebés) onde te recusavas a ir por causa do calor sufocante debaixo da lona ... Achas que uma mãe pode fazer mais ?
Lembras-te dos trabalhos de casa que, a horas ou fora delas , quer tu estejas ou não, elas nunca deixaram de fazer... lembras-te dos trabalhos que apresentaram na escola com a minha ajuda.. .lembras-te dos inúmeros testes que fizeram sem que nunca deixasse de fazer com elas algum trabalho ou apenas um revisão, lembras-te das muitas reuniões a que nunca faltei mesmo que não pudesses estar presente... Não.
Lembras-te porém das vezes em que me falta a paciência e que grito com elas, das histórias que não lhes leio, das conversas que não tenho com elas, do excessos de televisão que permito ( enquanto faço o jantar ou estendo a roupa ). Achas que sou a super mulher... que não sinto o cansaço... que resisto a tudo e a tudo sou obrigada ? Achas que as nossas filhas se sentem abandonadas e que não converso, brinco ou rio com elas durante as tuas, às vezes, longas ausências ? Porque será que chamam tanto por mim ? Não é por certo por gostarem mais de mim ,porém talvez porque é comigo ( infelizmente , pensas tu) que passam a maior parte do tempo... faltar-lhe-ão maneiras à mesa, faltar-lhe-ão algumas normas ou regras... mas elas também têm pai. Será muito complicado ou difícil perceber que as mães não são auto suficientes para gerarem um filho, tal como o não são o “q.b.” para os educarem. A família é uma instituição e só funciona bem ( à semelhança de qualquer outra instituição) quando cada um dos membros por si e todos em conjunto cumprem as suas tarefas individuais para o bem estar colectivo. As nossas filhas têm uma mãe que grita de exaustão e um pai em part- time. Achas justo estares sempre a criticar-me? Se o teu dedo indicador ferisse eu estava numa chaga ( por fora não se vê, mas por dentro acredita que sangro!!!)
Achas que a minha política é a do facto consumado. Disseste-o hoje , quando te perguntei se podias levar a Ana à Musica, não quando te exigi que o fizesses. Achas mesmo que se tivesse outra alternativa eu tinha escolhido outro horário? Quem achas que a vai levar à Música quando fores jogar golfe ou fores para fora ? Achas que gosto de me levantar cedo ao Sábado ? Sabes que sempre evitei marcar compromissos para o Sábado ? E sabes porventura quantas professoras dão Formação Musical 1 , e quantos alunos permitem por turma ? Seria melhor pensares que não tive alternativa e de que nada serviria telefonar a perguntar se tu concordavas , pois não tive outra opção.
Tu que dizes que a tua vida é psicologia, achas que é indicador de sensibilidade pedires para eu levar a Ana à escola, por capricho ou para me castigares, e quando te perguntei se tu, dessa vez, não podias, me respondesses:
- Posso, e tu ? Estás a trabalhar ? ( Em doze anos nunca me viste de atestado médico senão após aos partos ou as operações que fiz – ao joelho e às varizes – ou quando as meninas estiveram doentes. Achas que estou em casa por mimo ou capricho ? Estou em casa porque me sinto à beira do precipício, porque alcancei os meu limites... porque me sinto sem coragem, sem alento, sem ânimo...doente.
- Achas correcto tratares-me como se eu fosse uma adolescente e desligares a televisão às 23H 50m, no preciso momento em que eu estava a ver a novela , como qualquer serviçal que se preze? Não vejo telenovela porque gosto de coisas “pimba” , mas porque enquanto vejo televisão cor-de-rosa esqueço por momentos a negridão que me vai na alma..,e consumo, consumo, tal como durmo, durmo, durmo...
- Achas bem ralhares comigo porque levantei cem euros da tua conta, oito dias antes de tos voltar a depositar ?
Passei 15 dias no Algarve sozinha. Tive saudades tuas e pensei que ao voltar, estaria perdoada, estarias perdoado ( Lembras-te de tudo o que me disseste na véspera de eu partir. Lembras-te do que te respondi. Impossível, eu não abri a boca. Ouvi simplesmente e achei que mais uma vez foste tremendamente injusto comigo. Calei...guardei...sofri..) Que parva e ingénua eu sou! Afinal , no dia em que te pedi cem euros ( 20 contos) respondeste mais prontamente do que se te telefonasse para perguntar se estavas bem... ( terias porventura dito para desligar pois estavas numa reunião e ligarias mais tarde) e foste célere e eficaz a dizer rotundamente NÃO ! Tudo estava como sempre. E fui pedir esmola a outra porta. Aquela porta que nunca diz não...A porta , o porto de abrigo que precisamos até morrer e que infelizmente perdemos sempre mais cedo do que desejamos e quando mais precisamos !
Por mais estranho que pareça a minha casa deveria ser o meu porto de abrigo, o meu companheiro o faroleiro que me ajudaria em momentos de tormenta, mas afinal tudo se passa ao contrário.
Por mais que faça para engrossar a “ gota de água” com que contribui para a construção deste porto de abrigo, mais mérito não tenho. Será que trabalho não é dinheiro ? Talvez não. Mas lá que tenho trabalhado muito, tenho. Quem cá vem diz que está bem e eu tenho feito tudo para que esteja óptimo...para que não te falte nada, para que não lhes falte nada e gostem da casa onde vivem... tu não te cansas de dizer que passas a vida a tropeçar nas “merdas” que eu compro , no lixo que eu encafuo, nas porcarias que eu faço. Curta é a vida para tanto desmerecimento... Afinal para que sirvo? Como mãe não presto, como mulher não presto ( tenho pouca vontade de fazer amor, o sexo não me motiva) , como cozinheira sou repetitiva , pouco original, pouco pontual o que prejudica a saúde do meu marido e das minhas filhas...além do mais sou viciada em drogas ( tomo comprimidos porque me tornei dependente) e sou fumadora ( deverei sentir-me responsável se as minhas vierem a fumar porque me vêem fumar e até se porventura se tornassem de outras coisas dependentes – o fumo também é uma droga e de uma coisa à outra vai um passo de formiga, dizes tu...), não respeito os outros, cheiro mal da boca, cheiro mal dos pés...tenho os dentes pretos e borbulhas na cara... sou uma merda. Felizmente que alguma merda é biodegradável- essa qualidade eu tenho. Sou degradável e estou já em degradação acelerada.
Como te sentias, se te sentisses como eu me sinto?
Em que pensavas, se pensasses o que eu penso ?
Sofrias ?!
Para terminar só mais uma coisa que me preocupa?
Porque é que eu não estou à altura da casa em que vivo? Porque cheiro mal da boca e dos pés, porque tenho os dentes pretos e borbulhas, ou porque deveria adoptar outra postura e passar a falar só com pessoas cultas e bem situadas na vida?
Olha lá, quando no outro dia te contei o que a D. Maria José disse à Joana acerca dos medicamentos a tomar quando se têm dores menstruais e tu me respondeste assim:”_ È uma pena trazer cá para casa pessoas com esta cultura?” , pensaste no que disseste ou fizeste-o, mais uma vez, irreflectidamente. . Espero sinceramente que o tenhas dito sem pensar, pois caso contrário aqui em casa , das nossas famílias, só poderia entrar o Marinho, a mulher, a minha irmã e o meu cunhado...na minha família e na tua poucos mais haverá que tenham feito algo além da 4.ª classe !!!
Se o disseste sentidamente , tenho razão para ficar muito preocupada. Assim sendo estarias a perder alguns valores morais valiosíssimos. È que as pessoas não valem pelos diplomas que possuem, as pessoas não valem pela existência . O que vale é o ser , a essência.
Por isso eu falo com igual respeito, consideração e prazer com o jardineiro que me bate à porta, com a D. Maria José que é analfabeta ( mas é boa) com a D. Amália que , tendo bom ou mau aspecto, bom ou mau feitio, sempre trabalhou honestamente e criou sozinha um filho de que se pode orgulhar, com o mecânico que me arranja o carro... com as empregadas da minha escola – gosto bem mais de algumas delas do que de algumas colegas, cheirosas e lindas por fora, letradas e cheias de diplomas, mas que estão vazias, podres e fedendo por dentro.
Vou terminar , mas antes quero explicar porque decidi escrever o que me vai na alma e tanto me faz sofrer.
Em primeiro lugar porque a psicóloga disse que me faria bem escrever, pôr fora o que me faz sofrer. As coisas saem , ganham vida própria e deixam de nos pertencer...como se parisse um filho, com muita dor, para que não fosse mais um pedaço do meu eu.
Em segundo lugar porque não seria capaz de te dizer todas estas coisas. Diria umas, esqueceria outras...seria interrompida e acabaríamos a conversa , sentindo mais uma vez que eu sou a culpada de tudo. Em vez de fada saí bruxa... tudo em que ponho a mão estrago.
Estrago as pessoas, faço-as sofrer... bato com as portas, incomodo...bato com os armários, não tarda está tudo em cacos...rego o jardim, desperdiço água...não ponho os tachos e panelas devidamente centrados, desperdiço gáz...ando para trás e para a frente para gastar gasolina... dou o meu número de telefone ao vizinho para me evidenciar... compro livros , para me armar... levanto-me tarde para não trabalhar e ao sábado e ao domingo para ir almoçar fora e o marido pagar ...compro roupa sem necessitar e fruta para estragar...tenho dívidas , que quando morrer o meu marido irá pagar... quem compraria esta casa, se não fosse o meu marido a poupar.
Como iria o meu marido poupar se não fosse eu também a ganhar ? Uma ninharia , está certo, mas que serve para me me vestir e calçar, para as vestir e calçar, para nos alimentar, a minha gasolina pagar, com a natação e a música não faltar, à empregada o ordenado dar, os livros , outros materiais da escola e as prendas dos amigos e familiares custear...
Nestes últimos doze anos aprendi com o meu marido que, inconscientemente ou não, para nos protegermos de possíveis agressões, para esconder algumas das nossas falhas, para nos libertarmos das nossas tensões , e sabe-se lá por que outras razões , banais ou freudianas, nada há como bombardear os outros com agressões, fazê-los bater e sentir lá bem no fundo ... é da física ( se estou errada , desculpa a ignorância) que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar. Assim para um estar por cima, o outro tem de estar lá bem em baixo, de bico calado.
Eu estou lá bem em baixo.
De bico calado, não.
Ainda falo, grito, barafusto e esperneio...não por ter força, mas porque tenho garganta...e muita , muita , muita dor... a dor derradeira... uma dor que mata.
Não acredito que faças e digas tudo o que me dizes e fazes por mal...Acredito quando dizes que gostas de mim... estou certa de que não sabes gostar de mim...porventura também não sei gostar de ti como devia, mas não te ridicularizo, não te torturo, não te amesquinho tanto. Não és a ultima pessoa do mundo em quem penso e com quem me preocupo, como disseste no outro dia.
Se não durmo contigo e não tenho vontade de falar contigo, de te abraçar e beijar , não é por não te amar, é porque estou a sofrer muito, estou a sangrar, a esvair-me, a morrer um pouco cada dia. Tenho vontade de me afastar, para me proteger.
Não leias este texto, pensando que te quero apenas censurar.
Quero sobretudo que penses em tudo o que disse...para te ajudar a me ajudares...para nos salvar.
Não há lágrimas que saciem a minha vontade de chorar.
Desculpa...não te quis magoar.
Temos de aprender a amar. Para amar não é preciso fazer sofrer.
Amar é cativar...Cativa-me ou perdes-me.
Eu afasto-me para ganhar tempo e espaço para te cativar... não para te abandonar... ( tento fazer tréguas...preciso de uma pausa para recuperar, acalmar , esquecer, perdoar e recomeçar a amar )





Da ( sempre) tua mulher, a burra “ de rastos” , mas que se quer / que nos quer pôr de pé...

Rosário ( de lágrimas !!! )