A DOR

A DOR
A dor que dói...

VIDA

Tejo que levas as águas, correndo de par em par, lava a cidade de mágoas , leva as mágoas para o mar...

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A meu pai


Paizinho,
sabias que...
nem todas as noites de verão
são de mil sonhos feitas?
Sabias, por certo,
melhor do que eu,
que a dor dói
quer seja verão ou não !
Lembras-te?...
Sim. Foi em pleno verão
que, deixando cair uma lágrima traiçoeira,
sorriste e me deste a mão
essa primeira vez...
essa sempre tua bondosa e frondosa mão!
Não sabias porém
que seria numa noite de verão
numa daquelas noites
de que tanto gostavas...
de que tanto falavas...
e com tantos amigos partilhavas...
que irias para bem longe partir!
Partir numa madrugada triste
numa madrugada quente de verão
quem em rigoroso inverno nasceu
não pode senão ser ilusão !
Partiste ou ficaste ?
Olhaste, respiraste, choraste e,
num suspiro profundo,
daqueles que abraça o mundo
calaste para sempre
e perdoaste
tudo o que de mau o mundo te ofereceu
e recordaste tudo o que a vida de bom te deu
e sorriste...
suspiraste de alívio tranquilo
(pois que ao mundo só o bem trouxeste)
e pensaste que chegando a tua hora
contigo levarias sofrimento
mas também o alento de saber
que , como se admira um malmequer,
nos ajudaste a nascer
a crescer
a amar
a sorrir
a lutar
a tolerar
a partilhar
a cuidar daquele belo jardim
não por ti plantado,
mas tantas e tantas vezes calcorreado
umas tantas vezes tão só
outras tantas e muitas
na companhia dos pombos...
das tuas e de outras meninas,
por quem tudo fizeste e farias
se cá pudesses ainda voltar um dia !
E porque partir
é tornar-se invísivel ao comum dos seres
que te alivie saber
quão forte sentimos a tua presença
a tua mão amiga
a tua eterna fantasia
de querer ficar, como ficaste,
para sempre na nossa companhia !

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