A DOR

A DOR
A dor que dói...

VIDA

Tejo que levas as águas, correndo de par em par, lava a cidade de mágoas , leva as mágoas para o mar...

quinta-feira, 1 de abril de 2010

CARTA AO DIRECTOR DO "malfadado" COLÉGIO M.BERNARDES



Lisboa, 13 de Junho de 2001
Maria do Rosário de C. Barros
(Enc. Educação aluna n.º 1189 / 3.ª A)



Ex.mo Senhor
Director Pedagógico do Colégio Manuel Bernardes,
Dr. Marco Paulo Gomes


É com a mais elevada consideração que me dirijo a V.ª Ex.ª , na tentativa de explicitar a solução que achei adequada para o que de seguida passarei a expor.
Pedindo antecipadamente desculpa pelo tempo que lhe vou “ roubar”, solicito que leia ,com a atenção que por certo lhe merecem todas as exposições que lhe são dirigidas, este meu desabafo.

Era uma criança de dois anos quando começou a frequentar a secção “Infantil” desse Colégio. Em boas mãos foi parar , pois é ainda com enorme saudade e gratidão que ambas recordamos a falecida aulixiar educativa, Sr. D. Fátima. e a educadora e amiga , Sr.ª D. Julieta. Foram anos de tranquilidade e sucesso para a minha filha e para mim. Ela estava feliz e eu também.
Sabendo que a minha filha era uma criança traquina, porventura igual a tantas outras, várias vezes abordei quer a Sr.ª D. Fátima, quer a Sr.ª D. Julieta para saber se tudo corria bem. Nunca ninguém se queixou da minha filha.
Quando alguma coisa corria menos bem, a Sr.ª D. Julieta dizia : -“Ó, Ana, Ó, Ana, Ó Ana !“ e tudo voltava ao normal. ( estas são histórias que a minha filha conta e que a educadora confirma). Em conversas informais que tínhamos aproveitava sempre para dizer aquilo que muitas vezes os pais já sabem, mas dá sempre prazer ouvir na voz de outra pessoa. A Ana é uma miúda muito gira .....e seguiam-se então aqueles elogios que enchem o nosso coração e alimentam a nossa auto- estima !
Um dia, numa festa de Natal, a minha filha ,que representava a Estrela Polar, dirigiu-se com outra coleguinha ao microfone que, embora à frente no palco, não estava a ser utilizado e foi / foram cantar a canção de natal que haviam ensaiado. Não foi desobediência , nem fuga à regra... foi espontaneidade, acredite !... E alguns de nós não conseguiram conter as lágrimas . Aquelas crianças tinham espaço e liberdade para crescerem ! Bem haja !

Infelizmente tudo mudou, quando a minha filha iniciou o 1.º ano, da 1.ª fase ,do 1.º Ciclo do Ensino Básico.
Não tinham ainda decorridos oito dias após o início das aulas e já a minha filha fora “posta na rua” de castigo, e não sem que antes tivesse sido julgada pelos amiguinhos que a acompanhavam desde os dois anos.
À pergunta da professora - “ A Ana também se portava assim na Infantil?”, os alunos deram a resposta que a professora esperava e induzira –“Ainda era pior ! “
Nessa mesma tarde, cheguei mais cedo ao colégio para avisar a professora de que a Ana iria faltar na manhã seguinte por ter uma consulta médica. Quando lhe perguntei se tudo corria bem, respondeu-me:
_ “ A sua filha não tem limites !” ...e enquanto corria apressadamente para o portão do pátio da escola ainda me disse, num tom de quem estava perfeitamente desorientado,
“ Tenho de metê-los na ordem, caso contrário não vão aprender a ler nem a escrever “.
Parei .. e o tempo parou comigo. Tudo esperava ouvir , menos aquilo.
( Por lei, qualquer “expulsão” da sala de aula deve ser devidamente justificada, mas sobre o que havia acontecido, nem uma palavra.)
Diagnóstico demasiado precoce... atitude demasiado drástica, creio !
Eu e o meu marido falamos com a Directora Pedagógica , com o Sr. Dr. Louro e com a professora. Chegamos a sugerir que a Ana mudasse de turma, para seu sossego e dos colegas, mas sem sucesso...
A minha filha chorou sentidamente, não o facto de ter vindo para a rua ( fora pouco tempo e nem vira o Sr. Louro*, disse-me depois) ,mas pelo facto de os colegas a terem julgado injustamente. Disse-mo com amargura, eu disse-o à professora... e a vida continuou.
O ano lectivo decorreu, não sem sobressaltos, com os “ recadinhos”, que se tornaram habituais e sempre na negativa: “ A Ana não fez....” A Ana não estudou...” “A Ana não esteve com atenção...”
E a minha filha , tal como as outras crianças, ávida(s) de aprender e de afecto continuara(m) a dizer ( quem sabe na esperança de que a professora um dia ouvisse aquele apelo) que a professora “ era a mais linda...era a melhor ...era a rainha...” , e a correr para os seus braços, nem sempre abertos , sem perceber (em) que estava(m) ali apenas a “expiar a culpa” de ser(em) criança(s) , de ter(em) energia e ser(em) traquina(s).
Numa reunião que se seguiu , as queixas continuaram... Pouco de positivo havia a apontar .
No início do ano lectivo seguinte, a professora confessou que a turma estava mais calma, porventura porque ” as feras tinham sido amansadas”. A propósito sugeri então que, tendo sido vencida a batalha da disciplina, se travasse agora uma outra batalha, não menos importante – a da auto-estima. Assim, como compensação às informações negativas, sugeri que se escrevessem nos cadernitos daquelas crianças algumas palavras de ânimo, alguns elogios. Às vezes, quase sempre, mais importante do que o “Muito Elevado” no teste, é a palavra amiga do professor que felicita o seu aluno pelo sucesso, ou que levanta o ânimo dos menos bem sucedidos, fazendo-os acreditar que podem fazer melhor !
Sabendo eu bem a quem se referia, a professora disse-me então que não estava ali para imitar o estilo de ninguém e que não tinha tempo para essas coisas ( pouco relevantes para si, estou certa !) Afinal, será que é vergonha aprender com os outros “!?... E prosseguia sempre fazendo a listagem dos conteúdos programáticos a abordar infalivelmente até ao final do ano... e os conteúdos sócio -culturais e afectivos - o espirito de colaboração e cooperação, a solidariedade, o respeito pelo trabalho individual, os valores morais que contribuem para a formação integral do indivíduo ?
Durante esse ano um outro episódio me fez sentir de novo um enorme mal-estar.
Estranhando a falta de informação escrita de carácter quantitativo , perguntei e alguém me disse que a Ana tinha feito um ditado e tinha tido Bom “gordo”. Estranhei que a Ana não me tivesse dito nada ( pois sempre o fizera) e perguntei-lhe o que se passava.

* ( Quando a minha filha se referiu, e eu me refiro ao Sr. Dr. Louro fazemo-lo com o enorme respeito que sempre mereceu, quer dos alunos, quer dos Encarregados Educação)



A Ana chorou como nunca a vira chorar antes, mesmo ali à porta do Colégio, para espanto de duas funcionárias do refeitório que sempre a conheceram como uma menina feliz e sorridente. Afinal tudo se passara assim:
A Ana fizera efectivamente o ditado e a professora classificara-o de Bom, porém no dia em que foram entregues alguém acusou a Ana de ter copiado.
A professora suspendeu então os trabalhos para investigar. Não tinha sido um, nem dois, nem três ...mas muitos, mesmo os que estavam bem longe, a ver “tudo” . Seguiu-se então um inquérito “intimidatório” por forma a fazer a Ana confessar que tinha copiado. A Ana negou, e o inquérito continuou no dia seguinte. A custo, a Ana confessou então que tinha copiado uma palavra. A professora resolveu assim a situação. O “Bom” foi riscado e por baixo ficou escrito :” A Ana copiou o ditado” .
Marquei reunião com a professora e perguntei-lhe o que se tinha passado com o ditado. Respondeu-me então que a Ana estivera todo o tempo de livro aberto.
-“ Então por que motivo não lho tirou e lhe classificou o ditado ?” – perguntei. A resposta foi evasiva, como seria de esperar. Conclui então que naquela aula funcionava uma “experiência de trabalho cooperativo”. À falta de dois professores... o que a professora sozinha não controla, há sempre alguém que denuncia!
Este ano, na reunião habitual com os Encarregados de Educação a professora fez o balanço do trabalho realizado e concluiu que daquelas crianças não iriam por certo “nascer” grandes escritores. Eles lá iam escrevendo , mas eram pouco criativos. Fez, então oportunamente questão de mencionar que , na idade deles, ela era bastante mais criativa.
Intervim então para dizer que, não querendo adivinhar de forma nenhuma o futuro da minha filha, achava que, para a sua idade, ela lia muito e por consequência escrevia, sem muitos erros, estruturando e organizando bem as ideias . Confessei mesmo que gostava de ler o que ela escrevia!
A professora confirmou que a Ana tinha “jeito” e eu confessei-me agradavelmente surpreendida ( nunca nada de semelhante me fora dito anteriormente) e expressei-lhe os meus agradecimentos. Chorei... Afinal pelos recados que lia nos cadernos da minha filha, só poderia concluir que ela era uma má aluna... e chorei... A professora da minha filha disse então, oportunamente, para quem quis ouvir, que eu não gostava dela e andava perturbada com os problemas de saúde dos meus familiares... Conforme pude, tentei explicar que gostar de alguém , não obriga a concordar com tudo o que o outro faz. Não estava a pôr em causa a pessoa, mas o método “pedagógico” utilizado... Afinal, mais do que ninguém os professores devem estar abertos a todas as sugestões que possam vir a contribuir para melhor rentabilizar o trabalho dos seus alunos. Ser professor é ensinar e aprender.
Uma outra altura houve, em que os alunos desenhavam para um concurso. A professora tentava escolher alguns meninos, digo, alguns desenhos. Não fosse a professora de Iniciação Artística a olhar atentamente para o trabalho da Ana e este teria mais uma vez sido ignorado. Obrigada senhora professora !
Este ano as coisas têm corrido bastante mal para a Ana. A irmã está a frequentar o 5,º ano e , no meu entender, precisava de algum apoio e orientação (as mudanças de ciclo são sempre perturbadoras). A Ana autónoma , responsável e organizada como era, iria conseguir aguentar-se sozinha. Enganei-.me e disse-o à professora, mal a Ana começou a revelar alguma instabilidade, menor capacidade de organização e ausência quase total de autonomia. Deixou de fazer os trabalhos de casa se eu não estivesse junto dela, começou a coleccionar “post-it” com recados da professora, assumia frequentemente o erro em situações em que nada lhe era imputável , culpabilizando-se por tudo, e por último começou a pedir para não ir à escola.
À informação dada, a professora apenas reagiu dizendo que a Ana já não tinha idade para ter ciúmes. Será que a Sr.ª professora sabe a idade da minha filha ? Tem oito anos... é ainda uma criança !!!
Tentei perceber.. falei com ela e com alguns colegas e retirei as minhas conclusões. “ A professora culpa sempre a Ana e põe-na de castigo, mesmo quando não é ela que começa “ “ Eu não tenho os mesmos direitos.” – disse-me a Ana, o que já há muito percebera, e os colegas confirmaram.


Nestes últimos tempos a Ana tem ido frequentemente para o “caixote do lixo” – local de castigo junto à porta. E tudo começa assim... Enquanto faz os trabalhos, tal como em casa, a Ana vai trauteando de forma quase inaudível uma melodia. O colega da frente pede-lhe em surdina para fazê-lo mais baixinho. Os restantes rapazes por quem está rodeada - a Ana esteve sempre e continua na última fila ( apesar de ter já informado a professora de que lhe fora diagnosticada ligeira miopia), afastada de todos as meninas - mal o ouvem, começam em voz alta a mandar calar a Ana ... e a Ana responde... e eles insistem... Quando o ambiente começa a ficar “incontrolável” a professora que , se calhar, nunca percebeu que a Ana gosta de “cantar baixinho” enquanto trabalha (é esse o grave crime que comete), põe a Ana de castigo, junto ao caixote do lixo. Em pé , a Ana olha para a turma e para os meninos que a puseram naquele lugar...eles deitam-lhe a língua de fora, ela faz uma “careta” querendo mostrar que não lhes liga. Então alguém da turma diz: “Ó professora, a Ana está a brincar para nos distrair.” A professora, pedagogicamente, diz: “Ana, já para a rua! “ A Ana vai, mas... se hesita por momentos para explicar o que se estava a passar, há logo um ou dois alunos que , em socorro da professora, dizem: “ Ó Ana, não ouviste a professora ? ““ Ó Ana, não ouviste a professora ? “
A Ana sai ... e com ela a revolta, a tristeza, a sensação de estar a ser injustiçada !
Agora, os colegas, já perceberam que esta estratégia dá resultado.. e insistem. Se outro motivo não houver, pelos menos enquanto centram a atenção na Ana, eles podem “folgar” um pouco mais...
Na véspera da visita de Estudo, foi proposto aos meninos que escolhessem o seu parceiro. Uma menina disse que queria ir com a Ana. A Ana aceitou.
A professora fez um aviso. “ Olha, Ana, se vais com... para a incomodar, eu separo-te e vens para ao pé de mim! “ Afinal, a Ana não incomodou.
Antes de terminar queria ainda referir uma situação que foi tremendamente penalizadora para a Ana e muito angustiante para mim.
Há cerca de duas semanas a Ana ia ter teste de Matemática. Pediu-me para estudar com ela. Tinha no entanto em minha casa , três amiguinhas da minha filha mais velha e ex-aluna do Colégio ( a que vai recordar com saudade , para o resto da vida, o colégio e a excelente professora que com ela trabalhou ), que vinham estudar com ela para melhorar uma nota. Pedi à Ana que estudasse com o pai. Ela insistiu que preferia que fosse comigo. Entretanto as horas foram passando e o tempo de deitar chegou. A Ana apercebeu-se de que não tinha feito a revisão para o teste e chorou.. Disse que ia ter negativa e a culpa era dela pois não quisera aproveitar a oportunidade de estudar com o pai. Tentei confortá-la, dar-lhe ânimo, fazê-la acreditar nas suas capacidades, mas de nada valeu. ( Aliás era tarefa difícil pois ela já aprendeu que para Matemática não presta..) Deitou-se e acordou a chorar.
Levei-a à escola, contei à professora o que se passara , pedi-lhe que olhasse para a cara da Ana e a desculpasse se alguma coisa corresse menos bem.
Sem a menor afectividade e em tom zangado a professora perguntou:
-“ Ana , fizeste a ficha de preparação para o teste ? Ai, não ! Então se não fazes os trabalhos de casa nem estudas é porque queres chumbar , não é?
De olhos baixos , rasos de lágrimas, a Ana foi respondendo a tudo que “não”
Foi um momento de catarse !
Ainda fiz um derradeiro apelo, que prontamente foi recusado .
-“ Não posso desculpá-la, se não o que digo aos outros...”
E, para acabar o dia em beleza, a Sr.ª professora corrigiu e entregou nesse mesmo dia, apenas dois testes (os outros alunos viriam a receber os seus cerca de uma semana depois) – intencional ou pura coincidência? – o da Ana com “ Reduzido” e o de outro aluno com “ Muito Elevado” . Era a primeira vez que a Ana tinha semelhante nota, e chorou. As colegas tentaram consolá-la . A professora não deixou, dizendo que a Ana tinha o que merecia...e ameaçou : “ Se continuas a chorar vais ao Senhor Director !”

Afinal que graves erros cometeu a Ana para ser assim “exposta “e “perseguida” , maltratrada desta maneira ? ( Será que os castigos da minha filha era a mim que se destinavam ? É tão feio e imoral que nem quero pensar nisso ! )
Nunca, quer a professora de Iniciação Artística ( com quem falei uma vez), quer o Professor de Educação Física , quer a Professora de Inglês, que conheço melhor e por quem nutro enorme consideração, me falaram da Ana como sendo um caso particular e especial de “indisciplina”. Houve sim quem me falasse da falta de solidariedade e de espírito de inter-ajuda que caracteriza a turma, como mal a combater e a corrigir.
Para terminar, pedindo desculpa pelo meu extenso “ desabafo”, venho pela presente informar que são motivos graves de carácter meramente pedagógicos que me levaram a solicitar a transferência da minha filha para outra escola.
Para crescer e aprender é preciso que nos sintamos bem... que “invistam” em nós.
A minha filha sente-se infeliz , injustiçada e desmotivada na turma que frequenta.
Dos amigos e da Rosa, ela já me disse que vai ter saudades...do colégio quem sabe! Da professora, decerto que não. (Ainda há bem pouco tempo me confessou, a chorar, o seu desencanto: “ Afinal eu enganei-me, mãe. A minha professora não é a melhor do mundo. Não é justa. “)
Consegue imaginar quanta angústia vai na alma desta criança de oito anos para fazer esta afirmação ?!.
Bom , graças a Deus, chegamos ao fim...e a Ana vai sobreviver, porque o que eu, o pai e todos os que gostam dela ( e não são poucos) queremos é que ela seja feliz. Deus há-de ajudar-nos !
Sem outro assunto,
subscrevo-me com elevada consideração
de V.ª EX.ª
A Encarregada de Educação

_________________________________
(Maria do Rosário de Carvalho Barros)

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